quinta-feira, 5 de março de 2026

Morreu António Lobo Antunes

Foi há três ou quatro dias que estava a arrumar a casa e ao tirar algum pó da estante de livros, peguei num dos dois do António que ainda não li, e desci-o para a minha mesinha de cabeceira. Lembro-me de ter pensado "Está tão velhinho o nosso António, um dia vai-se." E foi hoje, e ao ouvir a noticia esta manhã, descobri que afinal uma parte de mim sabia mas outra ignorava. Escritores como o António são como uma Catedral, o fogo pode chegar à cidade mas achamos que ali não, ali nunca. O António, de certa forma, para mim era um dos quatro imortais. Um irrequieto, rebelde, absolutamente interessante, fumador crónico a viver numa cápsula do tempo para onde já quase não sabemos nem conseguimos voltar, um dos melhores escritores do mundo. Estranhamente não recebeu o Nobel da Literatura, como garantidamente merecia. Nem sempre a vida é o que se espera, ou o que se deseja; nem sempre é justa. O que é certo é que o António inconformado a viver numa nuvem de fumo, chegou aos magníficos 83 anos. Um poço de memórias de olhos azuis. Não era meu, mas era. Por isso hoje sinto-me um bocadinho triste e vazia. Fica-nos sempre a faltar amar mais as pessoas; pessoas como o António, que não se repetem.

(...)

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