Todos os dias levantar-me às 5h, sair de casa às 6h, e nos últimos tempos largos, a essa hora enfrentar a chuva, o vento e o frio.
Até eu que gosto do Inverno, já não suporto estes dias assim - tantos dias - de céu zangado.
e já tenho quase quinhentas páginas de poesia lidas.
Este vai ser o ano para fazer menos coisas, muito menos coisas e mais devagar. O ano para fazer mais coisas bem feitas, para fazer apenas uma coisa de cada vez.
Ontem no Hospital, nos cuidados intensivos, em hora de pausa, num gabinete estava um médico tombado a ler e a ouvir ópera. Alheio a tudo. Pensei que se um dia estiver entre a vida e a morte, vou gostar que me tratem umas mãos de alguém que lê e que ouve musica. De alguém que sobretudo sabe usar bem o seu tempo, o bem mais precioso que temos, logo a seguir à vida.
Saber o valor certo de cada coisa. E saber que praticamente tudo são só coisas, apenas coisas. Que as necessidades da nossa alma às vezes pedem descanso, silêncio, mar.
(...)
Acho sempre que os bons cozinheiros são pessoas que tiveram infâncias felizes. Houve sempre uma avó especial. Acho sempre que as pessoas mais inteiras tiveram mãe e pai. Mas se calhar não, sou só eu que acho que quem cozinha e trata por tu os alimentos, vem de casas onde a mesa onde se sentavam todos era o lugar mais importante.
Paredes de dentro caiadas de branco, a Luz do Sol a entrar pelas janelas da alma. Mas se calhar não...
Olha mãe, fiz para ti!
Fizeste 6 anos filha. 6 anos e tens a força toda, a energia, a alegria. A Vida pulsa em ti de uma forma tão vibrante que nem sempre é fácil acompanhar-te. Em alguns dias parece que estamos em caminhos opostos: quanto mais te aferras à vida, mais eu me desprendo. É engraçado porque começo a perceber que realmente há uma chama em nós que inevitavelmente com o passar do tempo vai ficando lume brando. Mas a tua chama aos 6 é uma tremenda labareda a céu aberto. És destemida, ousada, corajosa com leões e cagona com formigas; adoro o calor das tuas mãos no meu rosto, e dormir agarradinha a ti nos dias em que deixas. O primeiro objectivo do ano era ver-te celebrar com os teus amiguinhos desde a fralda, e cumprimos. A Alice trouxe-te camélias, ganhaste desenhos lindos. Começo a ver contornos de um mundo de afectos que comecei a desenhar lá atrás, e que é uma espécie de fortaleza para quando eu não estiver.
Parabéns nossa Maria, já tens 6.
Chegamos.
Ganhamos começar de novo. Brincar de ser feliz. Estrear tudo: uma Páscoa novinha em folha, um Carnaval para bailar bem, um Verão para encher de gelados e mar, um Natal para fazermos melhor.
De resto, o que já sabíamos: novas guerras, novas ambições desmedidas e objectivos que nos ultrapassam, sempre com as mesmas vítimas. Os Homens continuam a fazer guerras, em nome da Paz. Intenções à parte, que triste maneira de estrearmos o ano.
Tão bom Em que temos as últimas noites frescas e as primeiras noites quentes. Em que os gatos de fevereiro mostram por fim distinta personal...