domingo, 2 de novembro de 2025

Sobre morrer de medo do amanhã

Nunca vivi esse medo, assim tão entranhado na pele. Aflige-me deixar de viver hoje, por causa de um amanhã que pode nem chegar. Para mim contam mais as emoções, as que vivemos e as que despertamos. Importam esses pequenos gestos que lembram aos outros que os amamos muito. Importam os detalhes. Para mim o dinheiro só serve para servir. No meu percurso de vida, desde os dias em que eramos pequenos e não tínhamos mais do que a saia da minha mãe, lembro-me que houve sempre alguma coisa para nós no caminho. Como se Deus fosse acompanhando. E até hoje, quando os dias mais dificeis surgem, tenho essa sensação de conforto, de que não estou sozinha e de que em algum ponto do caminho, as coisas vão melhorar. Nunca tenho medo que me faltem cinquenta euros. E nunca me faltaram.
Do que eu tenho medo, é dos dias sem sal, dos dias sempre cinzentos. É de um dia procurar amigos que amo e não procuro faz tanto tempo, e de eles já não se lembrarem mais de mim. Tenho medo das doenças implacáveis na minha gente. Tenho medo desse cheiro a mofo quando banalizamos o amor dia apos dia. Tenho medo de perder a capacidade de chorar. 
(...)

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