segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Nós por cá

Pensamos que os nossos problemas todos - mas mesmo todos - desaparecem se virarmos à direita. Depois viramos à direita e apenas mudamos de problemas. 

Deixamos a minha mãe no aeroporto e o que dizer. O meu coração fica sempre mais encolhido longe dela. De qualquer forma tudo o que nos separa não muda, e pode ser que um dia eu seja só mesmo mais uma filha que fica terrivelmente parecida com a mãe. De momento vou lamber as minhas feridas e guardar para mim. Falar mal de uma mãe, não é de todo o melhor indicador de uma pessoa de bem.

Estou com vontade de fazer mudanças na casa, mas para já vou começar por arrumá-la devagarinho. Este Verão ganhei um eucalipto doméstico, sempre quis ter um. Destralhar faz parte desta altura do ano, Setembro chega com coisas novas e é importante criar os espaços.

Alguns planos, pequeninos. Não vou contar a ninguém porque é bem como disse a Simone de Oliveira: contar a toda a gente que vou fazer um piquenique e depois chega o dia e chove, não dá.

Eu e o Luís precisamos de perder peso. De começar por mudanças de hábitos. A miuda comeu gelados sem parar este Verão, e nós também fizemos as nossas asneiras. A verdade é que num mundo onde tanta gente morre à fome, ficar gorda por comer em excesso é uma coisa que a mim particularmente me perturba. Aqui vai ter que ser virar à direita e carregar no acelerador. Mesmo.

Gaza e Ucrânia. Em festa de cobras dança-se com botas. Ninguém está verdadeiramente interessado no sofrimento das pessoas. Hoje são eles, amanhã podemos ser nós. Porque o mundo está estranho, estranhamente estranho...

Nem revistas li este Verão. Sinto-me oca. Mas descobri uma livraria infantil que é um lugar encantado: os livros parecem todos escritos por criaturas mágicas. Já vos disse que adoro livros infantis?

Sobre os incêndios, sinto muita vergonha. Não votei neste governo, de qualquer forma não tenho vontade de votar nunca mais na minha vida. Sinto verdadeiramente que somos carneirinhos pouco pensantes muito bem usados. Não sei se é possível ajudar aquelas pessoas de modo a paliar a ferida da perda, do pânico. De qualquer forma as nossas serras queimadas são uma ferida de todos nós. E o que sinto é tristeza, vergonha, revolta.

Deixei crescer as unhas. Mas não dá. Não é coisa que case com a minha pessoa. Gosto de ver nos outros mas incomoda-me em mim. De maneiras que tenho que ter calma com esta vontade de mudança. Já não tenho idade para o desconforto.

A Maria e o ipad. Tem dias que entro em colapso mental. A miúda transforma-se num verdadeiro ogre. Birras aos quilos e agressividade a sair pelos poros. E a resposta passa por muito slime, plasticina, idas ao parque e à praia e ao espaço, e a nossa presença constante. É por isso que o ipad continua a ser um problema, porque nós paizinhos usamos e abusamos do jeito que nos dá. E temo que a longo prazo a consequência seja algo terrorífico.

Sinto falta: De respirar. Do Luís. De dormir. Das minhas amigas. De ter dinheiro sem dono. Da chuva e do cheiro da terra molhada. De me apetecer vinho tinto. De ler um livro incrível. Do silêncio. De estar sozinha. De fazer caminhadas.

O ponto alto do nosso Verão foi ver a miúda vestida à Sporting a passear por Ponte de Lima. Soube bem assistir ao desfile da alegria e da vaidade dela. Vive no Porto, tem uma turminha de portistas que se manifestam, já nos disse que gostava de ir viver para o estádio do Dragão - e quase matou o pai - mas não sabia ainda que vestir uma camisola é também defender algo em que se acredita. Se ela um dia quiser ser portista ou de um clube que nem conheço, não faz diferença nenhuma. Só quero que ela perceba que não precisa de ir atrás da manada. E que as escolhas dela são as escolhas dela. Nós e os outros, vamos respeitar. Para já gosta do Sporting, pode ser que lhe fique para a vida toda.

Esta é a ultima semana do mês de Agosto. E eu gostaria muito que encerrasse um ciclo. Estou cansada, exausta. Preciso muito de sentir a paz e o tempo. São coisas que escapam de nós na vivência dos dias, sejam eles atribulados ou de férias. Escapam de nós porque vamos com a corrente.

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