Eu não posso ser condenado por trabalhar
Pois não.
Mas podes e vais ser condenado por não saberes impor limites.
Eu não posso ser condenado por trabalhar
Pois não.
Mas podes e vais ser condenado por não saberes impor limites.
Ontem a Maria chegou a casa com as histórias do dia no Colégio, como sempre. O acontecimento importante foi que brincaram com uma joaninha: "Segurei ela na minha mão mãe, e ela abriu as asas! Depois a Sofia e a Alice também pediram e eu passei para a mão da Alice. Era tão bonita, mas o Leo atirou-a ao chão e matou-a. Porquê que ele fez isso mãe?"
Antes que eu respondesse, o pai disse: "Porque o Leo é rapaz e os rapazes são assim."
Não, os rapazes não são todos assim. Mas há pessoas que gostam do fim, que interrompem a beleza, que afrontam a Natureza, que não escutam com o coração. Se calhar nunca ninguém explicou ao Leo que matar uma joaninha assustada, não é coisa de um menino valente. É urgente explicar-lhe, porque ele tem apenas seis anos.
Os Homens que crescem indiferentes, tornam-se soldados do nada.
Foi há três ou quatro dias que estava a arrumar a casa e ao tirar algum pó da estante de livros, peguei num dos dois do António que ainda não li, e desci-o para a minha mesinha de cabeceira. Lembro-me de ter pensado "Está tão velhinho o nosso António, um dia vai-se." E foi hoje, e ao ouvir a noticia esta manhã, descobri que afinal uma parte de mim sabia mas outra ignorava. Escritores como o António são como uma Catedral, o fogo pode chegar à cidade mas achamos que ali não, ali nunca. O António, de certa forma, para mim era um dos quatro imortais. Um irrequieto, rebelde, absolutamente interessante, fumador crónico a viver numa cápsula do tempo para onde já quase não sabemos nem conseguimos voltar, um dos melhores escritores do mundo. Estranhamente não recebeu o Nobel da Literatura, como garantidamente merecia. Nem sempre a vida é o que se espera, ou o que se deseja; nem sempre é justa. O que é certo é que o António inconformado a viver numa nuvem de fumo, chegou aos magníficos 83 anos. Um poço de memórias de olhos azuis. Não era meu, mas era. Por isso hoje sinto-me um bocadinho triste e vazia. Fica-nos sempre a faltar amar mais as pessoas; pessoas como o António, que não se repetem.
(...)
Ainda agora foi final de ano e já estamos em Março.
Tenho observado os passarinhos, como cantam alegres de madrugada quando saio para trabalhar. Os dias, apesar do frio, estão maiores e mais iluminados. Tudo parece serenamente seguir o curso normal da vida. Só nós é que não. Inventamos novas guerras e eu desconfio que ninguém tem razão. Novos escândalos que causam espanto, nojo e tristeza.
Cada vez mais precisamos de ser resistentes. Treinar o nosso olhar para as coisas belas da vida, essas que vão ficando raras, mas que todos os dias acontecem. O mundo está realmente pesado, e a maioria das pessoas tristes e cansadas.
(...)
Eu só queria poder amar um bocadinho melhor, um bocadinho mais, a minha menina, o meu Luís e a minha mãe.
Eu não posso ser condenado por trabalhar Pois não. Mas podes e vais ser condenado por não saberes impor limites.